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Disney com Motoboy

Recebi hoje esse email do meu amigo Bruno Pinaud, do Rio de Janeiro.

Um email-roteiro.

Com vocês, o Bruno.

foto-0023.jpgAgora, foi divertido.

Tudo firme, eu Flavinha e Lucca no Flamengo, dentro do táxi pro aeroporto. Destino: Disney.
A Flávia diz: esse trânsito é que começa a preocupar…
E eu pensando comigo: nada, pior se a gente tivesse esquecido alguma coisa, passaporte, passaporte do Lucca, autorização… e me veio a imagem dos dólares num envelope passadinho, branquinho, ao lado da cama. Fiz as contas e o limite do cartão não seguraria a primeira semana. Tive que dizer: esqueci o dinheiro. A Flávia: não acredito que você esqueceu o dinheiro. O Lucca: não acredito que você esqueceu o dinheiro. O motorista de táxi: não acredito que o senhor esqueceu o dinheiro.
Deixei o Lucca e as malas grandes com a Flávia (idéia da Flávia, eu estava em estado de letargia), peguei as mochilas e desci.
Estava em frente ao palácio da Guanabara me perguntando: e agora? Levei 40 minutos pra chegar lá. Tinha mais 40 até a hora do embarque.
Parei o primeiro motoboy que encontrei: 50 pratas pra me levar no Jardim Botânico ONTEM, vai?
Ele: demorou.

Vesti aquela sacola quadrada-preta do motoboy e partimos fazendo tudo quanto é bandalha que você olha e acha que os caras são suicidas. Passávamos entre fileiras de ônibus, andamos na contramão, em ziguezague por carros parados, sinal? Qual? Os joelhos, tirando tinta. E os braços duros de agarrar com toda força no único ferrinho que havia à minha disposição pra segurar. A outra opção era abraçar o motorista. Mas preferia perder o avião com um mínimo de dignidade. Nem que fosse o mínimo.

E o cara falava: Aí, cê não tem medo, não né?
Tenho outros problemas, olha pra frente e concentra aí.

Pra resumir, chegando em casa lembrei que a chave estava na mala por causa do canivete que tenho no chaveiro. Já perdi três em check-ins. Tocava a campainha sem resposta. 40 minutos antes, a empregada e a babá estavam lá, parecendo superocupadas…

Tentava ligar pra alguém, mas estava tão nervoso que não conseguia acertar os botõezinhos do telefone.

Pra emergências ou descuidos como esse, mantenho uma chave na casa da minha mãe. Em Niterói. Antes de eu chegar lá o avião já estaria na Disney.
Não tinha muito mais o que eu pudesse fazer. Era começar a pensar num terapeuta pro Lucca, além de uma namorada nova. Nem eu namoraria comigo depois dessa.

Senti o terreno, tomei impulso e fui parar no meio da cozinha, cuspindo serragem.

A vizinha berrava de dentro da casa dela: que tá acontecendo aí fora?! O que está acontecendo aí fora?! Só falei com ela na volta, disse que tinha esquecido o passaporte. Peguei os dólares, escondi o laptop debaixo do travesseiro e larguei a porta partida em dois, aberta, de cara pra minha bicicleta. Deixei cinqüenta pratas com o porteiro pra ele comprar Durex e embarcamos.
Da escala em São Paulo, pedi pra Heloise, mãe do Lucca, dar um socorro e eles martelaram umas madeiras pra sustentar a porta fechada.

Não teve montanha russa da Disney que passasse perto daquilo. Acho que minhas pupilas nunca ficaram tão dilatadas.

Agora, lembrando, parece mais engraçado. Na hora eu estava bem pilhado. Mas as emoções não acabaram.

Lá foi um espetáculo. As filas um pé no saco mesmo em baixa temporada. A Disney é chatinha, até o Lucca pedia: papai, quero um brinquedo radical. Mas os parques em volta são demais, quem quiser ver o vídeo é só dizer, o Lucca está impagável nas montanhas-russas. Compramos milhares de bugigangas eletrônicas e brinquedos pras crianças (eu incluído, claro). E começou a bater o cagaço da aduana. Por alguma razão, quanto mais a gente se aproximava do Brasil, mais eu voltava a me sentir na garupa do motoboy outra vez.

A tal da cota não é por semana não?

Compactamos tudo no menor número de malas possível. Esprememos até estalar. Eram menos malas do que tínhamos direito, precisávamos ser discretos. E, é claro, quando uma mulher percebe que tem espaço, arruma mais coisa pra colocar. Então, fomos nós com nossas duas malas, mais uma mala emprestada da Flavinha, com um enxoval pro sobrinho que ainda não nasceu, repleto de itens pro moleque ir usando até fazer 17.

Enfim, empilhei as malas no carrinho e coloquei o Lucca sentado sobre tudo. Só pensava no HD que estava na mala de baixo. Mas era importante parecer que não tinha nada que importasse lá dentro.
Falei pro Lucca não esquecer de dar bom dia pro moço e ele gritou lá de trás: BOM DIA, MOÇO!!!
Metade da fila olhou. O que me dava esperanças do cara não ter ouvido. Chegando, o fiscal respondeu ao bom dia do Lucca e perguntou: Buenos Aires ou Estados Unidos? E o Lucca: Sou Botafogo. Rimos muito. Eu, de nervoso. O cara disse: agora você se deu mal, eu sou Flamengo. Ih, Lucca, olha a enrascada que a gente se meteu. Na mesma hora o Lucca repensou e começou a cantarolar: sou flamenguista, sou flamenguista! Lucca, vai virar casaca na frente do moço, isso não é bonito. O fiscal sarcástico: Esse vai dar um bom político, hein? E eu lembrando do motoboy, não fala isso não, já tenho problemas demais. O cara riu e falou que a gente podia passar, nem precisava apertar o botão. Pra que: Botão? Quero apertar o botão, cadê o botão, papai, o moço disse que tem o botão, posso apertar o botão, deixa eu, cadê o botão…
Deu verde. Mas eu já estava com uma úlcera.

Viajar pra Disney devia ser proibido. É muita emoção.

Beijos,
Bruno.

1 Resposta para “Disney com Motoboy”


  1. Icone Gravatar 1 Igor Baschenis

    Muita emoção. Ele nem falou do bico da namorada, mas nem precisava. Ótimo!

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